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Preta Gil estreia monólogo e diz: “Mostrei celulite antes disso virar moda”

Leo Dias

11/09/2019 06h00

Preta Gil (Foto: Alex Santana)

Polêmica, levemente desbocada, sincera e criada no mundo – como ela mesmo diz – "maravilhoso do tropicalismo e dos hippies paz e amor". Preta Gil, aos 45 anos, revela um pouco de sua história de vida no teatro e estreia nesta quarta-feira, 11, em São Paulo, o stand-up musical "Mais Preta que Nunca". Dirigida por seu ex-marido, Otávio Muller, e com direção musical do filho, Francisco Gil, a cantora trata de forma leve e divertida experiências da infância e adolescência, até se tornar cantora. Histórias, segundo ela, que relembrou por meio de um grupo de Whatsapp com amigas desde que decidiu criar o espetáculo há dois anos.

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Em conversa exclusiva com o Blog do Leo Dias, Preta conta que já era empoderada muito antes deste termo virar moda, e diz ter confrontado padrões estéticos e comportamentais, driblando preconceitos que sofreu: "Aprendi a lidar com adversidades e transformar o "não" em "sim, o julgamento em respeito. Mostrei meu corpo, minhas celulites, minha sexualidade. Não é fácil conviver com quem tenta te rebaixar."

Ainda na entrevista, a filha de Gilberto Gil diz que o pai cada vez mais é sua inspiração, e relembra quem eram seus ídolos da infância, entre eles Gretchen. Incentivada pelo sucesso da "rainha do rebolado", Preta colocava seu maiô de oncinha e rebolava em frente a TV.

E se hoje se discute muito a "cura gay", Preta Gil, nos anos 80, aos 16 anos, melhor amiga de Amora Mautner na época, resolveu protestar contra uma professora de matemática que tratou homossexualidade como doença e deu seu primeiro "beijo gay" na diretora de TV em forma de protesto, sendo as duas convidadas para se retirar da escola: "Todos os colegas foram ao delírio."

Leia a entrevista completa com Preta Gil:

BLOG DO LEO DIAS – Como surgiu a ideia de criar um espetáculo? Em que momento da vida ele surgiu?

PRETA GIL – Acho que a semente foi plantada em 2006 quando eu fiz a peça "Um Homem Chamado Lee". Desde então ficou um gostinho de estar em teatros. Na época eu estava começando minha carreira como cantora e não dava para viajar com a peça. Para "Mais Preta Que Nunca" a gente se planejou por dois anos, esperei minha neta crescer um pouco mais. Queria estar mais perto do público de teatro que não está acostumado a ir nos meus shows nas festas e na madrugada.

Ser dirigida pelo ex-marido foi uma ideia sua? Nunca existiu ruído entre vocês?

Otávio e eu nos conhecemos desde a adolescência e é pai do meu filho, convivemos intensamente a vida toda e eu confiei a missão a ele justamente para não perdermos tempo em "fazer sala", focamos no objetivo. Mas o curioso desse processo é que Francisco nosso filho é o diretor musical e eu me vi nas mãos dos dois, acatei as "ordens", fui obediente e "voto vencido" muitas vezes. Não tínhamos tempo para ruídos. Somos gente que se gosta e se respeita há muito tempo.

Preta Gil no espetáculo (Foto: Felipe Panfili)

Quem ao seu redor deu pitacos neste texto? E quem te ajudou a relembrar histórias?

Fiz um grupo de amigas no Whatsapp e perguntei as lembranças delas, minha irmã Maria também foi fundamental já que vivemos boas coisas juntas. Meu empresário Marcello Azevedo me recordou de histórias que eu sempre contava e que ele achava que era bacana incluir. Tudo começou quando eu e a roteirista Daniela Ocampo ficamos "presas" em um spa fazendo uma boa viagem no tempo entre risadas, lágrimas e comidinhas fit. Tem muita coisa que ficou de fora, quem sabe eu não faço uma sequência, a peça acaba quando eu viro cantora.

Existem episódios que você optou por não colocar no espetáculo? Por que?

Fiz questão de não envolver histórias particulares que envolviam outras pessoas conhecidas, não achava justo, conheço muita gente e não seria bacana ficar explorando intimidades dos outros somente de um ponto de vista meu. Toda história tem dois lados.

Você é acompanhada de uma banda só de mulheres. É algo que reforça seu feminismo?

Queria uma banda só de mulheres desde o início. No meu bloco e shows de cantora eu trabalho com os mesmos homens há anos e achei que seria oportuno ter mulheres ao meu lado. Estamos em um momento do mundo em que as mulheres precisam se unir, o mundo tem que começar a entender o feminino de dentro pra fora e não importa se você é homem ou mulher. Não é uma coisa de dividir homens e mulheres mas de unir propósitos, a partir de uma visão feminina da vida.

O que você acredita impactar mais o público quando conta no espetáculo?

Minha vida é um "livro aberto" e quem me acompanha sabe o que penso e o que vivi. As pessoas se surpreendem com uma história de preconceito que conto e como, mesmo sendo filha de um astro da música, eu e minha irmã não estávamos livres de racismo no transporte escolar. É incrível como tem coisas que vivi nos anos 80 que até hoje muita gente ainda passa. Eu conto para que continuemos a refletir e evoluir.

Preta Gil (Foto: Felipe Panfili)

Um desses episódio é o seu 'beijo gay' na Amora Mautner numa espécie de manifesto? Como isso aconteceu? Isso reforça a sua luta contra o preconceito.

Nasci no maravilhoso mundo tropicalista, sou filha de hippies de uma geração que acreditava na paz e no amor, que lutou pela liberdade e na nossa casa ninguém julgava ou rotulava ninguém, não tinha isso de "fulano é gay", "ciclano é hétero", as pessoas eram amadas e respeitadas por serem seres humanos. Demorei um tempo até entender essas diferenças e o preconceito. Nesse episódio eu devia ter uns 16 anos, foi numa aula de matemática e a professora do nada fez um comentário de que gay era uma doença mas que tinha cura, eu e Amora [Mautner] éramos as melhores amigas, ela também cresceu num ambiente onde a gente achava tudo isso muito normal. A gente era da turma do "fundão" e quando a professora disse isso, mexeu com a gente. Oi? Olhamos uma para a outra, demos as mãos, fomos até a frente e dissemos que não tinha nada de doença e falamos em tom sério " É normal homem namorar homem, mulher namorar mulher e a gente também namora". Demos um beijão na boca uma da outra. A galera foi ao delírio. Fomos convidadas a nos retirar da escola.

Na peça você diz que quando era criança queria ser a Gretchen.

Sim, a Gretchen foi uma das muitas mulheres cheias de personalidade que me influenciaram. O Brasil sempre teve grandes artistas femininas, mas eu ficava vidrada nas que me inspiravam algo ainda pequena. Minha madrinha Gal [Costa], Rita Lee tinham essa força, as Frenéticas me deram um "start" com a música "Perigosa" que eu repeti tanto que virou uma espécie de "mantra" pra mim. Adorava os programas de auditório como o do Chacrinha com aquela seleção de chacretes e a Gretchen reinava. Amor, minha avó teve que fazer um maiô de oncinha pra eu ficar rebolando na frente da tevê.

Quais são suas principais referências atuais aos 45 anos, Preta?

Pode parecer piegas mas eu te digo que quanto mais eu envelheço mais eu entendo e admiro meu pai.

Você é uma artista que sempre foi alvo de preconceito. Como você lidou com isso em toda sua vida e como lida com isso no espetáculo?

Tem uma história que conto no espetáculo que reflete bem isso, o que era para ser bullying na escola eu transformei em "showzinho" e parei o recreio. Ao longo da vida eu aprendi a lidar com as adversidades e transformar o "não" em "sim", o julgamento em respeito. Não é mérito meu apenas mas antecipei essa onda de "empoderamento", eu mostrava meu corpo, minha celulites, minha sexualidade e confrontava os padrões muito antes disso virar "moda", nunca é fácil conviver com quem não te entende e tenta te rebaixar mas a vida me ensinou que a pessoa só tem uma saída para ser feliz, ser ela mesma, se aceitar e se amar.

Este espetáculo estreia em São Paulo e depois roda o Brasil. Por onde você quer passar com ele? Qual seu objetivo com este espetáculo?

Estamos construindo esse caminho aos poucos enquanto concilio com minha agenda de shows, sem que uma coisa atrapalhe a outra. Fiz um "test drive" em Bangu, quis estrear no meu aniversário na cidade onde nasci, agora faço um lançamento em São Paulo mas voltarei em temporada em 2020. Em novembro farei temporada no Rio de Janeiro e pretendo viajar por todo país depois do período de festas, me aguardem "Mais Preta que nunca".

*Com reportagem de Lucas Pasin

Preta Gil (Foto: Alex Santana)

Sobre o autor

Leo Dias é jornalista e apresentador do programa “Fofocalizando”, do SBT. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos.Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: “A fama tem um preço estou aqui para cobrar”.

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Notícias exclusivas sobre o mundo das celebridades e os bastidores do show business no Brasil.