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Felipe Neto: "Fui criado achando que a homossexualidade era pecado"

Leo Dias

07/09/2019 19h22

Felipe Neto (Foto: Divulgação)

Mesmo sem estar presente à 19ª edição da Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, o empresário e youtuber Felipe Neto se tornou o nome mais comentado do evento ao distribuir, neste sábado, 14 mil exemplares de livros com temática LGBTQIA+. A ação foi uma resposta contra a censura do prefeito Marcelo Crivella, que, no dia anterior, determinou a agentes da Secretaria Municipal de Ordem Pública do Rio, que vasculhassem os 150 estandes da Bienal em busca de obras consideradas "impróprias" para crianças e indevidamente expostas, em especial a história em quadrinhos 'Vingadores: A Cruzada das Crianças', que contém um beijo entre dois personagens do mesmo gênero em uma das cenas.

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Em entrevista ao Blog do Leo Dias, Felipe diz que apenas fez sua parte com a atitude que tomou e que já passou da hora de a sociedade entender que um beijo entre pessoas do mesmo sexo não é errado. "Beijo gay não é pornografia, não é imoral e não pode jamais ser censurado. Amar não é errado", diz ele, que acredita que a cena retratada na literatura nada mais é que uma representação do que, de fato, acontece na vida. "A criança vai ver isso na rua, no shopping, na vida. Então é mais do que natural que o entretenimento seja uma janela da vida real. Ensinar nossos pequenos sobre amor, aceitação e diversidade é fundamental para termos uma sociedade mais justa, igual e unida", completa.

Ciente de seu papel como formador de opinião, o Youtuber diz que o jovem não quer sermão, mas exemplos, como o que ele deu nesta ocasião contra uma eventual censura. "Eu tento inspirá-los através de ações, e acredito que eles enxerguem isso", diz.

Felipe, que no início de sua carreira como Youtuber gravou vídeos com conteúdo intolerante, revela que a leitura o fez ampliar os horizontes e se tornar uma pessoa com olhos para a diversidade. "Eu fui criado de maneira tradicional e conservadora, acreditando que a homossexualidade era pecado. O grande motivo de ter me desprendido desses conceitos reacionários foi a paixão que desenvolvi pela literatura e a pesquisa. A leitura me libertou e me fez enxergar a necessidade de luta por uma sociedade que abraça a diversidade", conclui.

Acusado por algumas pessoas nas redes sociais de querer se promover com a repercussão do caso, Felipe é categórico. "É melhor [ser] um oportunista lutando por um mundo melhor do que um não oportunista sentado no sofá, tentando ofender aqueles que fazem alguma coisa. Não me importo em ser visto como oportunista, só quero continuar lutando, finaliza.

Leia a íntegra da entrevista com Felipe Neto:

BLOG DO LEO DIAS – Você não esteve presente à Bienal esse ano, mas se tornou o nome mais comentado do evento com sua atitude. O que mais te incomodou na fala do prefeito do Rio para você agir?

FELIPE NETO – Quando ele comparou um simples beijo entre dois homens como um "ato sexual" e tentou utilizar a lei de pornografia para censurar o afeto. Beijo gay não é pornografia, não é imoral e não pode jamais ser censurado. Amar não é errado.

Na sua opinião, no que a imagem de um beijo entre dois personagens do sexo masculino em uma HQ impacta uma criança, um adolescente?

Para início de conversa, as HQs em questão são consumidas por público adulto, no máximo adolescente. Quando foi a última vez que vimos uma criança de 7 anos pedindo esse tipo de literatura? Ainda assim, mesmo que fosse o caso, já passou da hora de entendermos que um beijo entre pessoas do mesmo sexo não é errado, nem imoral, nem deve ser censurado. A criança vai ver isso na rua, no shopping, na vida, então é mais do que natural que o entretenimento seja uma janela da vida real. Ensinar nossos pequenos sobre amor, aceitação e diversidade é fundamental para termos uma sociedade mais justa, igual e unida. Crianças que são impedidas de aprender sobre a diversidade podem se tornar pré-adolescentes confusos e preconceituosos.

Martin Luther King Jr. disse que o que mais o incomodava não era o grito dos maus, mas o silêncio dos bons. Como é estar do 'lado do bem' e fazendo barulho?

Só faço a minha parte e não dou tapinha nas minhas próprias costas por isso. Só quero fazer mais.

Você tem um trabalho voltado fortemente para o público infanto-juvenil. No cenário atual, com conservadorismo crescente e a possibilidade de grandes retrocessos, como fazer para manter essas jovens cabeças abertas ao novo, à tolerância?

O jovem não quer sermão, ele quer exemplo. Eu tento inspirá-los através de ações e acredito que eles enxerguem isso.

Muita gente acusa você de oportunista. O que você acha disso? Como reage aos ataques que recebe? Isso te afeta de alguma forma?

É melhor um oportunista lutando por um mundo melhor do que um não oportunista sentado no sofá, tentando ofender aqueles que fazem alguma coisa. Não me importo em ser visto como oportunista. Só quero continuar lutando.

Você também já foi preconceituoso e intolerante? Como ocorreu a mudança para o Felipe Neto de hoje?

O preconceito é institucionalizado. Ele cresce conosco e é muito difícil se desprender completamente. Só o que podemos fazer é passar a vida tentando. Eu fui criado de maneira tradicional e conservadora, acreditando que homossexualidade era pecado. O grande motivo de ter me desprendido desses conceitos reacionários foi a paixão que desenvolvi pela literatura e a pesquisa. Foi assim que passei a questionar aquilo que tinha passado a vida inteira tratando como verdade irrefutável. Quando comecei a gravar vídeos para o Youtube, ainda tinha muito desse reacionarismo dentro de mim, o que é inclusive visível nos vídeos dez anos atrás. A leitura me libertou e me fez enxergar a necessidade de luta por uma sociedade que abraça a diversidade.

Em conversa com um amigo do blog, pós graduado em Literatura, você foi comparado à Monteiro Lobato, que, cansado de tentar mudar a mentalidade dos adultos, passou a escrever para crianças, para quem está aberto ao novo, e dedicou sua vida a isso. Você acredita estar nesse mesmo caminho? Como você vê o impacto das suas palavras e das suas atitudes sobre os mais jovens?

Os jovens sempre serão o futuro. Ajudar a influenciar suas personalidades para o amor, a aceitação e a igualdade é algo que me motiva diariamente. Jamais me compararia a um gênio. Sou apenas um garoto com um megafone, tentando divertir e deixar o mundo melhor para quem quiser ouvir.

Muita gente diz que o mundo tá chato por estar politicamente correto, por não se poder fazer uma piada homofóbica, uma piada racista. Como você vê esse tipo de comentário?

Com a tristeza em saber que a educação dessa pessoa falhou. Estamos quase em 2020. É hora dessas pessoas pegarem um livro e irem estudar mais. Eu vou continuar fazendo a minha parte e tentando levar os jovens para o caminho do amor.

*Com reportagem de Geizon Paulo

Sobre o autor

Leo Dias é jornalista e apresentador do programa “Fofocalizando”, do SBT. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos.Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: “A fama tem um preço estou aqui para cobrar”.

Sobre o blog

Notícias exclusivas sobre o mundo das celebridades e os bastidores do show business no Brasil.