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Leandro Vieira: "O Jesus da Mangueira parecerá com quem nasceu no morro"

Leo Dias

18/07/2019 17h46

Leandro Vieira (Foto: Divulgação)

O enredo de uma das escolas de samba mais populares do Rio de Janeiro, a Estação Primeira de Mangueira, que tem seus fãs por todo o Brasil, já está definido para 2020. Com "A Verdade vos fará livre", a verde e rosa levará mais uma vez a religiosidade para a Sapucaí e falará de Jesus Cristo.

O carnavalesco da agremiação, Leandro Vieira, que ocupa o cargo desde 2016, conversou com exclusividade com o Blog do Leo Dias e contou que "o Jesus Cristo da Mangueira parecerá com quem nasceu no morro", e não com uma visão de alguém europeu.

Ele, que é bicampeão na escola carioca, é um dos grandes nomes da atualidade no Carnaval carioca. Um intelectual popular, que recusou altos salários em troca de liberdade para produzir enredos como o do ano que vem da Mangueira, algo de uma genialidade que só poderia ter saído de Leandro.

O carnavalesco já falou de religião em 2017, com o enredo "Só com a ajuda do santo" e causou polêmica criando um tripé que trazia uma imagem de Jesus Cristo de um lado e do outro Oxalá. Por pressão da Arquidiocese do Rio de Janeiro, esta criação não passou duas vezes pela Sapucaí, e a Mangueira não o levou para o Desfile das Campeãs.

Para 2020, o carnavalesco – que define sua religião como "um homem de fé" – não pensa em levar imagens sacras para a Sapucaí, e nem mesmo nada relacionado à nudez, algo contrastante e que faz parte do Carnaval.

Tripe da Mangueira de Jesus Cristo em 2017 (Foto: Reprodução)

Leia a entrevista com Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira:

BLOG DO LEO DIAS – Por que a igreja é tão presente nos seus enredos?

LEANDRO VIEIRA – Não é a igreja que é presente. O que é presente é a religiosidade do povo brasileiro. Olho para o tema com interesse cultural e não com interesse teológico, entende? Trato religião com respeito porque tenho respeito e encantamento pela cultura popular do meu país. Sou um artista apaixonado pelo Brasil e pelo seu povo crendo que a fé plural do brasileiro sintetiza demais o entendimento de todos nós enquanto nação.

Como você acha que Jesus era? Qual a aparência que você imagina ele? Ele vai ter um rosto na Mangueira? Vai ser negro? drag? da Favela?

Essa ideia do rosto de Cristo é muito curiosa. Essa imagem mais tradicional está ligada à visão eurocêntrica. A ideia de um Jesus de pele clara surgiu na Idade Média e talvez a imagem mais bem difundida de seu aspecto físico ainda reproduza o contorno de artistas renascentistas como Michelangelo e Da Vinci. Essa imagem de um homem branco, de traços finos e de cabelos e olhos claros foi construída para atender interesses específicos. Já é consenso entre pesquisadores e cientistas que o Jesus de Nazaré, inclusive por questões geográficas, teria a pele mais retinta e as características de seu rosto, como os lábios e o nariz, destoariam das feições "europeizadas" que estamos habituados a encontrar. Nesse sentido, a imagem de Cristo pode assumir muitas possibilidades, porque, de fato, desde o princípio, ela foi uma imagem criada. O Cristo da Mangueira vai ter então a aparência mais próxima de quem nasce no Morro da Mangueira. Vai ser mais próximo e "achegado" da gente de lá do que daquele que está lá eternamente preso na cruz.

Hoje a igreja raramente proíbe alguma coisa, mas uma proibição atrapalha o carnaval né? Você pensa nisso?

Acredito que a proibição em casos especificamente associados ao carnaval – o Cristo do João 30 é o caso mais emblemático – se dê muitas vezes em função da sociedade brasileira olhar para os desfiles de forma equivocada. De forma geral, ainda impera a visão de que o desfile é "festa" e não exibição artística de alto nível. O Cristo de Nazaré talvez seja a figura mais recorrente nas diversas manifestações artísticas do mundo ocidental. É aceito quando esculpido, quando pintado, quando é tema para o teatro, levado ao cinema e para a novela. Quando é tema para a mais importante manifestação popular e artística do país ele levanta questões que em outros campos artísticos tradicionalmente não encontra. Essas proibições de forma geral são muito mais preconceituosas do que religiosas. Luto contra essa visão e seguirei "remando contra essa maré."

E qual a sua religião?

Sou um homem de fé e de forma particular a diversidade religiosa me agrada. Creio em Deus, e por conviver bem com a diversidade que me cerca, tenho uma tendência cristã. Sim, pra mim, o "cristo" tá mais naquele que convive de forma pacífica com a diferença do que naquele que faz da diferença motivo de qualquer tipo de discriminação.

Vai evitar pessoas peladas ao lado de imagem sacra?

Nunca usei de forma gratuita a nudez em meus desfiles. Se a nudez estiver a serviço da arte acho válido, porque, inclusive, o nu artístico é temática recorrente nas artes plásticas. Porém, a sociedade brasileira construiu no seu imaginário coletivo essa ideia de desfile de Escola de Samba como espaço "para bunda de fora." Aliás, trabalho inclusive com a intenção de desmistificar isso. Para 2020 não penso nem em nudez, nem em imagem sacra.

*Com reportagem de Lucas Pasin

Sobre o autor

Leo Dias é jornalista e apresentador do programa “Fofocalizando”, do SBT. Foi correspondente internacional da rádio portuguesa RDP, passou pelas TVs Bandeirantes e RedeTV! e apresentou um programa na rádio FM O Dia, líder de audiência no Rio de Janeiro, onde entrevistava políticos, jogadores de futebol, dirigentes e muitos artistas. Assinou uma coluna de celebridades no jornal "O Dia" e também esteve nos jornais "Extra" e nas revistas "Contigo", "Chiques e Famosos", "Amiga" e "Manchete". Apesar dessa experiência, sempre se definiu como repórter, tamanha paixão pela apuração da notícia e pela vontade em produzir conteúdos exclusivos.Polêmico, controverso e dono de uma forte personalidade, Leo conquistou um público cativo por dar notas explosivas e audaciosas num mundo artístico mais conservador. Seu lema: “A fama tem um preço estou aqui para cobrar”.

Sobre o blog

Notícias exclusivas sobre o mundo das celebridades e os bastidores do show business no Brasil.